sábado, 24 de fevereiro de 2018

"A Rainha Louca"



A rainha louca
Acordou somente de touca
Pois que, arrancou a roupa
Arrancou a roupa
Pensou em vingança
Achou muito pouca
Saiu na sacada do palácio
A cantarolar com voz rouca
Eu sou a louca!
Eu sou a louca!
Subiu na mesa do jantar e disse:
Sou a galinha da sua sopa
Na sala ouviu na vitrola Maysa
Cantando “Ouça”
Pegou os vassalos
E quebrou toda a louça
No imenso closet
Fez uma orgia vestindo
Apenas sapatos e bolsa
Foi até uma escola e escreveu
Um cabeludo palavrão na lousa
Eu sou a filha daquela...
A filha daquela rainha tão augusta
A filha da mulher bela e enxuta
Filha de rainha tão arguta
Eu sou a filha da...
Chuta! Chuta a coroa e fuja!
Correu nua pela rua a esbravejar!
Eu sou a louca!
Eu sou a louca!
Encontrou um saco de lixo vazio a voar
Não hesitou em usar
Fez um vestido bem mixo.
Passou a gritar
Sou a Rainha do lixo!
Sou a Rainha do lixo!




quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

"O Colar"



Colar... colar...

Conto o tempo passar
Assim indo e vindo
No seu vai e vem
Conto o tempo entre contas
Tantas contas pra lá e para cá
Conto o tempo para que eu dure
E que o fio de vida se perdure
Já pensou eu arrebentar
E nossas tantas contas de vida no meio da rua a rolarem?
E você sobre seus saltos desesperada a catar uma a uma!
Bem provável que reflita e desista de me ter em seu pescoço
Essa pressa do seu horário de almoço
Não estarei mais em seu colo
No vão de seus seios
Oras com decote discreto
Outros bem pronunciados
Dias de vestido bem fechado
O que será que deu nela?
Já até mergulhei no prato de sopa
Quase me afogo
Melhor me deixar de vez em quando no armário
Entre outros modelos tagarelando 
Contando Suas aventuras da rua
Afinal, já que não posso colar em seu pescoço
Nem mesmo quando fico prensado entre seu peito e o do moço
Que sufoco!!!


sábado, 26 de agosto de 2017

"O Desabafo do Vestido"






Sou sua segunda pele

Sua epiderme

A cara do dia do seu cerne

Sou eu quem roço em tuas curvas

Acompanho o balançar de tuas ancas

Eu que esbarro em seus mamilos 

Quando estes estão livres

Eu acompanho a coreografia dos seus gestos

E quando você dança com ele

Eu sou o amante

Eu sou a trama que cobre o teu corpo

A estampa que alguém criou

Das flores que outro pintou

Do tecido que o outro cortou

Do molde que mais alguém fez

De alguém que costurou

Depois que um alguém desenhou

Sou a colheita do algodão que outro colheu

Talvez a semente que um ser plantou

Hoje te vesti para você!

Por favor, não me dispa!

Persista...

Me lave, me torça, me passe, mas me vista...

Foi bom pra você?

Vamos ficar juntos outra vez?


sábado, 29 de julho de 2017

(transcende...)




trans/sente
o Acender em mim
desse acender em ti
do transcender dentro de mim
transcender dentro de ti
do outro ser de ti em mim
da outra que vive de mim em ti
há tantas mentes
há tantos corpos
há tantas almas
trans/borde dos copos
infinita casa santa
infinitas portas e janelas se abrindo
que se abrem na mente aqui sentindo
no corpo de mim pote seu
trans/corte
cicatriz/sangue/sexo/ tão forte
trans/mita não minta
trans/bocas de trans/beijos
trans/olhos de desejos
trans/perfumes de cheiros
trans/trens loucas locomotivas
transaméricas cargueiros
transatlânticos cruzeiros
trans/mute
rasgo-me em vários
folheio-me em diversas
diversifico-me em tantos
diluo-me em muitas
trans/porte
transporto-me...
transporte-se para o mundo
transcendendo assim...

tantas trans/manifestações de mim


sexta-feira, 16 de junho de 2017

"Paredes"





As Paredes...
São imensas
Não têm fim
São paredes sim
Paredes frias
Gélidas
Escuras e sujas
De musgo
De moscas
De rusgas
De mágoa
São monstruosas
Se movem
Te pegam
Te arrastam
Te prendem
Te comprimem
Te massacram
São só paredes de pé direito alto
São muralhas
Impossíveis de se escalar
Escorregadias
Elas ecoam tristeza
Elas são imensidão sem beleza
São paredes
São teias
São rede
Paradas
Pérfidas
Pútridas
Inertes
Que se trincam em fendas
E engolem gente
Comem pessoas inocentes
Num imenso e lúgubre
Labirinto sem saída
São apenas paredes
Cumprindo seu "papel de parede".







sexta-feira, 12 de maio de 2017

“Doralinda”


Poema inspirado em minha peça teatral "Anonimato e morte de Doralinda", na foto: Rita Oliveira (Doralinda), Foto de Joelma Marcolino, direção: Lya Bueno, Direção de arte: Antonio Apolinário).

Da nem tão linda vida de Dora
Árida vida
De Dora nem tão linda
Da dura vida de tantos dias ser Dora
Doura a vida de sol
Doura a vinda de lá
De quem já sabe que partiu
Da vida já vivida e que quer ser relida
Nem tão linda assim
Mas que dura a fio
Não tão dura pra meu rio
Da vida tecida sem brilho
Da vida cheia de mágoa
Da vida tecida sem amores
Da vida cheia de mágica
Só na mente desbotada de Dora
Despida agora de vida
Só não mente e cora
O diretor gritou luz, câmera... ação!
Brilhou Doralinda
A estrela morta no céu do sertão
Ser... tão só...
Dó ré mi fá...

Sol lá si dó...
Dó... ra... linda.


sábado, 18 de março de 2017

"Lençóis"


Entre morros e lençóis

Tão brancos

Nossas curvas

Nossos sóis

Á percorrer, dedilhar

As manhãs amarfanhadas

As luzes tão entronas

Invasoras vãs

Iluminando nossos  vãos

Teto/chão

Amor/tesão

Seguindo as pistas da preguiça

O amor já esta de pé

Acordou ereto e reto

Querendo entrar assim como sol

Invadir atrevido

Rasgando todos os lugares

Bruto/líquido

Da janela a luz nos desenha

O esparramar sem fim

Uma manhã em resenha

A boca ainda quieta

Nada diz, só quis

Ela apenas te engole 

Sentindo o sabor dos pensamentos

A luz matinal nos molha de sentimentos

O mundo está lá fora

Apenas isso.

Maciez de lamento.