sábado, 26 de agosto de 2017

"O Desabafo do Vestido"






Sou sua segunda pele

Sua epiderme

A cara do dia do seu cerne

Sou eu quem roço em tuas curvas

Acompanho o balançar de tuas ancas

Eu que esbarro em seus mamilos 

Quando estes estão livres

Eu acompanho a coreografia dos seus gestos

E quando você dança com ele

Eu sou o amante

Eu sou a trama que cobre o teu corpo

A estampa que alguém criou

Das flores que outro pintou

Do tecido que o outro cortou

Do molde que mais alguém fez

De alguém que costurou

Depois que um alguém desenhou

Sou a colheita do algodão que outro colheu

Talvez a semente que um ser plantou

Hoje te vesti para você!

Por favor, não me dispa!

Persista...

Me lave, me torça, me passe, mas me vista...

Foi bom pra você?

Vamos ficar juntos outra vez?


sábado, 29 de julho de 2017

(transcende...)




trans/sente
o Acender em mim
desse acender em ti
do transcender dentro de mim
transcender dentro de ti
do outro ser de ti em mim
da outra que vive de mim em ti
há tantas mentes
há tantos corpos
há tantas almas
trans/borde dos copos
infinita casa santa
infinitas portas e janelas se abrindo
que se abrem na mente aqui sentindo
no corpo de mim pote seu
trans/corte
cicatriz/sangue/sexo/ tão forte
trans/mita não minta
trans/bocas de trans/beijos
trans/olhos de desejos
trans/perfumes de cheiros
trans/trens loucas locomotivas
transaméricas cargueiros
transatlânticos cruzeiros
trans/mute
rasgo-me em vários
folheio-me em diversas
diversifico-me em tantos
diluo-me em muitas
trans/porte
transporto-me...
transporte-se para o mundo
transcendendo assim...

tantas trans/manifestações de mim


sexta-feira, 16 de junho de 2017

"Paredes"





As Paredes...
São imensas
Não têm fim
São paredes sim
Paredes frias
Gélidas
Escuras e sujas
De musgo
De moscas
De rusgas
De mágoa
São monstruosas
Se movem
Te pegam
Te arrastam
Te prendem
Te comprimem
Te massacram
São só paredes de pé direito alto
São muralhas
Impossíveis de se escalar
Escorregadias
Elas ecoam tristeza
Elas são imensidão sem beleza
São paredes
São teias
São rede
Paradas
Pérfidas
Pútridas
Inertes
Que se trincam em fendas
E engolem gente
Comem pessoas inocentes
Num imenso e lúgubre
Labirinto sem saída
São apenas paredes
Cumprindo seu "papel de parede".







sexta-feira, 12 de maio de 2017

“Doralinda”


Poema inspirado em minha peça teatral "Anonimato e morte de Doralinda", na foto: Rita Oliveira (Doralinda), Foto de Joelma Marcolino, direção: Lya Bueno, Direção de arte: Antonio Apolinário).

Da nem tão linda vida de Dora
Árida vida
De Dora nem tão linda
Da dura vida de tantos dias ser Dora
Doura a vida de sol
Doura a vinda de lá
De quem já sabe que partiu
Da vida já vivida e que quer ser relida
Nem tão linda assim
Mas que dura a fio
Não tão dura pra meu rio
Da vida tecida sem brilho
Da vida cheia de mágoa
Da vida tecida sem amores
Da vida cheia de mágica
Só na mente desbotada de Dora
Despida agora de vida
Só não mente e cora
O diretor gritou luz, câmera... ação!
Brilhou Doralinda
A estrela morta no céu do sertão
Ser... tão só...
Dó ré mi fá...

Sol lá si dó...
Dó... ra... linda.


sábado, 18 de março de 2017

"Lençóis"


Entre morros e lençóis

Tão brancos

Nossas curvas

Nossos sóis

Á percorrer, dedilhar

As manhãs amarfanhadas

As luzes tão entronas

Invasoras vãs

Iluminando nossos  vãos

Teto/chão

Amor/tesão

Seguindo as pistas da preguiça

O amor já esta de pé

Acordou ereto e reto

Querendo entrar assim como sol

Invadir atrevido

Rasgando todos os lugares

Bruto/líquido

Da janela a luz nos desenha

O esparramar sem fim

Uma manhã em resenha

A boca ainda quieta

Nada diz, só quis

Ela apenas te engole 

Sentindo o sabor dos pensamentos

A luz matinal nos molha de sentimentos

O mundo está lá fora

Apenas isso.

Maciez de lamento.



sábado, 25 de fevereiro de 2017

"Terezinha sem Jesus"



Os foliões passaram numa algazarra e Terezinha sem Jesus de uma queda não foi ao chão. Pois apesar de um pouco alcoolizada, na verdade, um tanto embriagada, para ser sincero, Terezinha estava bêbada, sorte não estar sobre saltos e sim de rasteirinhas, assim traçou uma linha imaginária e foi até o carro, não titubeou, não trançou as pernas, não caiu... saiu cantando pneu e assoviando... se você fosse sincera... ô...ô...

Os três cavalheiros não precisaram acudir, já que queda alguma houve, estavam eles possivelmente mais alterados que ela, cada um se despediu e foi para um rumo desigual, nenhum deles chapéu não mão, a lata, o copo, a garrafa apenas isso...as ruas repletas de confetes e serpentinas agonizantes.

Ninguém lhe deu a mão, Terezinha é feminista e extremamente independente, beira o insuportável, um deles tentou, ela virou um sopapo que não acertou pelo grau alcoólico.

Terezinha sem Jesus, “ele” Jesus, era seu funcionário, primeira vez que ele aparecia de madeixas cortadas, havia vendido os fios em troca de uma graninha para beber no carnaval. Na verdade, Jesus era só um apelido devido sua aparência, seu verdadeiro nome era Thomaz.

Por isso o primeiro não foi seu pai, ela não fala mais com ele, só aguarda a hora da herança, nem tão pouco seu irmão, Terezinha só tem irmãs, ela não deu a mão para ninguém, chegou em casa sã e salva graças a ela mesma, não pediu proteção e nem ajuda a nada, Terezinha era ateia, se deitou na cama que seu terceiro marido esquentava o lugar.
Terezinha apagou e teve certeza que acordaria de ressaca.



Os três amigos, cada um em seu rumo, um ia ver se passaria no vestibular, outro revoltado com sua remuneração na empresa, o outro procurava emprego.

Todos em seus respectivos lares, individualmente acordaram com uma batucada na cabeça, juraram que nunca mais beberiam... até a noite.

domingo, 2 de outubro de 2016

"Aurora"















Aurora se foi...
Esperando a aurora boreal
Os coelhinhos da Páscoa... o Natal
Tão pouco fadas ou duendes vieram
E sim fados doentes se fizeram
Em seus ouvidos de silêncio
Nem mesmo o dedo no fuso foi necessário espetar
A monotonia do castelo em tédio reinava desde o raiar
Só se prostrou a esperar pelo príncipe... e fiar...
O homem perfeito que nunca chegou
Porque simplesmente nunca existiu
Hoje os fios do fuso se mesclam as teias do seu sexo nunca visitado e aos fios brancos de seus cabelos
A poeira dos lábios de cima às dos lábios de baixo nunca tocados
Em seu vestido branco virginal
Mais branco que o cavalo do príncipe ausente
Antes tivesse provado os sapos saltitantes causadores de alguma alegria
Por vezes asquerosos, mas mesmo assim teriam lhe proporcionado certa euforia
Dorme então assim para sempre até suposto fim
A música ecoa pelos corredores do castelo de sua mente
A voz diz assim:
Fiando...
Fiando...
Não paro de fiar,
 Trabalho cantando
Na roca de fiar...
f...