quarta-feira, 16 de setembro de 2015

"A Volta da Mulher Hora"





O peso das horas acaba por escapar a todo instante,  do vão da vida, cada segundo, o tic-tac insuportável não deixa ninguém se esquecer disso.

A volta da Mulher Hora marca este tempo incessante, seus braços ponteiros pontiagudos retornam para reforçar que é chegada a hora, ela a filha única, a herdeira do falecido relojoeiro daquele vilarejo.

Agora chega  para acertar as horas, com todos os doze números, seja meio dia ou meia noite, sejam as inocentes três horas da tarde da tenra idade ou as pecamminosas três horas da madrugada dos insaciáveis e dos mortos, tudo culmina no despertar.

O relojoeiro que morreu de desgosto olhando para o cuco, ave desgraçada, que gritava e ocultava os berros da Mulher Hora.

Agora ela vem tanto tempo depois e acerta as horas com cada um dos doze e coloca seus ponteiros em seus devidos lugares dando a cada um o merecido "não despertar".

Assim como as areias do tempo a escorrerem pelas infindas dunas de areia da ampulheta, ela se esvai, escorre e desaparece como o tempo perdido, a infância esquecida, as espinhas da adolescência, os espinhos das primeiras rosas vermelhas, a primeira vez com os doze que romperam a aurora sem avisar... sem pedir.

Entraram em seu tempo, invadiram sua vida, rasgaram suas horas... ela deitada no centro da sala redonda.

Doze números mortos... em algumas horas, a volta da Mulher Hora em minutos e sua partida em segundos... no eco do tempo...

O peso do grande relógio do decorrer da vida encarquilhando as costas.

Isso já faz tanto tempo... será agora a hora de acordar? 

Ou de dar corda? Não vejo a hora...


Tic... tac...

Tic...

Tac...



segunda-feira, 31 de agosto de 2015

"Lágrima"


(Este texto faz parte de uma fase antiga, foi escrito faz mais de vinte anos, até então inédito.)

Brilhando na retina,
Vindo do canal da lágrima,
Uma gota
Límpida e cristalina,
Uma lágrima de amor
Ou de saudade,
Uma lágrima de tormento,
De dor ou de lamento,
Corre pela face e se anuncia
Como o sol que abre o dia,
Como o trovão antes do relâmpago,
Como o arco-íris que atravessa o campo,
Seja qual for o motivo,
Triste ou festivo,
Doce ou dolorido,
Amado ou sentido,
Corre pelo rosto,
Pela pele em destaque
Como sangue na neve.
Um cometa que atravessa o céu,
Uma ovelha desgarrada,
Estrela cadente sob o véu.




Lágrima,
Lasca de cristal
Com destino marcado em sua boca,
Entre os lábios adormece
E se esparrama
Delirante e deita louca.
Talvez na hora em que
Poderia surgir uma palavra,
Uma voz rouca
Que se tornou suspiro,
Que se pronunciou em silêncio,
Perdeu-se entre os dentes,
Transformou-se em saliva,
Transportou-se num beijo

E morreu em outra boca.




quarta-feira, 22 de julho de 2015

"Strangers in the night..."





Strangers in the night...

É o que diz a música ao longe
Somos todos estranhos nesta noite
Muito estranhos na noite de hoje
Muito estranhos sempre
Interfone toca
Alguém bate à porta
Tocam a campainha
Olho mágico
Sem tanta magia assim
Mais um estranho entra
Mais um estranho sai
Do apartamento vazio
Da casa nua
Da mente cheia de sonhos
Do corpo copo de desenhos
Do corpo copo de desejos
Dos sonhos inquietos e irrequietos de ilusões que nunca se aquietam
Nada se arquiteta
Mas um estranho se torna a cada noite menos estranho
Um estranho mais íntimo na noite
E tudo tão perfeito como num filme clássico
Cena sob trilha de Frank Sinatra
E o estranho que se tornaria o menos estranho
Torna-se o maior estranho de todos
Todos querem estranhos
Estranhos querem todos
Então sou mais um estranho na noite estranha
Uma música
Um silêncio na noite
Em versão instrumental
Em versão bolero
Em regravação moderninha
Todas parecem lastimar
Lamentar
Os estranhos na (da) noite
A mente rodopia
Incansável
Casais rodopiam insanos
Bêbados de(em) delírio
Mais uma noite estranha
Num mundo estranho
De homens estranhos...
As vezes a música acaba antes da dança
Em outras a dança antes da música
E o salão fica vazio
Um só perdido
No coração de piso frio
Strangers in the night!

quarta-feira, 1 de julho de 2015

"Página Vermelha"






(Inédito, escrito há vinte e cinco anos (por volta de...)




A lua sobe,

A noite cai,

Estrelas e postes acendem

Na negra noite de néon.

Noite reflete e espelha,

Na manhã seguinte

Na página vermelha.

Bares, todos os lugares

Abrem suas portas.

Noite abre suas pernas.

Todos se abrem.

Noite que cospe suas tribos.

Mocinhos, bandidos, punks, darks, metaleiros, góticos, grunges, skatistas, pixadores, surfistas, androides e andróginos.

Desfilam na noite

E estampam a página vermelha.

Todos expõem suas armas... almas...

Revolveres, cassetetes, beijos, facas, navalhas, bocas, giletes, olhares, sexos e canivetes.

Lutam na noite

E se rendem

Na pagina vermelha.

Todos se perdem no proibido,

Liberam libido

Sem álibi, sem gemido

E desafiam as leis da selva noite.

Noite apocalíptica noite,

Avenida visceral,

Sedução recíproca,

Noite marginal.

Todos gatos são pardos,

Todos cordeiros são lobos,

Ninguém é de ninguém,

Ninguém é ninguém.

Nada se parece,

Ninguém se assemelha,

Só tem identidade,

Na página vermelha.

Mãos ao alto!

Isso é um assalto, um estupro, um sequestro, um assassinato, um encontro.

Paixões tornam-se crimes

E crimes são a paixão.

Disputam espaço

E fazem a noticia

Na página vermelha.

Exala na noite

Muita adrenalina.

Crack, cocaína, maconha, heroína, prozac, LSD, álcool, cigarros, tragos, balas e doces.

E fazem um brinde

Na pagina vermelha.

Todos se encontram na noite...

Heterossexuais, bissexuais, homossexuais, transexuais, travestis e assexuados.

Entrelaçam-se no prazer

E vírus da noite.

E dão a luz

A pagina vermelha.

Lua que assiste a tudo

E como narciso,

Admira-se na poça de sangue do asfalto

E da lugar ao sol

Que traz consigo a próxima edição

Da pagina vermelha.

domingo, 14 de junho de 2015

"Meu coração na bandeja"




Agora já não tem mais jeito,
Que então seja feito 
E que assim seja!
Meu coração já é teu...
Pode servir na bandeja.
Um dia só sem te ver
E o pobrezinho já lateja!
Pode sim... pode servir na bandeja
Já é... o que ele deseja.
Talvez não sei se é... comê-lo
Realmente o que você almeja.
Pode ser como antepasto
Pode ser o prato principal
Ou até mesmo sobremesa.
Chama o garçom pra servir na bandeja.
Não fica muito bonito servir moído,
Pode ser picado no molho como moela...
Ainda mais se colocar na baixela.
Pode ser acebolado, todo tostado,
Hum! Bom pra caralho!
Então vê se não esquece o alho! 
Que é pra não ficar insosso.
Pode servir no jantar, no lanchinho ou no almoço.
Pode ser refogado no vinho ou assado na cerveja.
Pode, pode sim, meu benzinho,
pode servir na bandeja.
Pode ser em cubos enfiados no espetinho,
Ele promete bater quietinho,
Sem fazer alarde,
Mesmo no momento em que mais arde.
Pode ser caramelado, crocante por fora e tenro por dentro,
Pode ser desfiado com salsa, tomate e muito coentro.
Pode ser trufado, horas bolas!
Já que somos dois chocólatras.
Opa! Pode bem ser boiando na sopa,
Ou em salada, com bastante alcachofra.
Pode ser polvilhado de confeitos coloridos,
Nada mais o fere depois desse cotovelo tão dolorido.
Pode ser em lascas, ou pode ser em bife.
Assim que melhorar seu apetite,
Depois que passar a gripe.
Pode ser guisado, vou achar até gozado,
Ou frito com muito pimentão,
Requentado no amor ou na paixão.
Agora já não tem mais jeito,
Que então seja feito e
Que assim seja...
Meu coração já é teu,
Pode servir na bandeja.
Pra acompanhar pode beber um espumante,
E o coração bife a rolê, 
pra não escapar o recheio,
Amarre bem com barbante.
Depois de devorá-lo com rabanetes,
Não esqueça o fio dental,
Que é pra eu não ficar em seus... dentes, foi mal,
E não sair em tuas palavras.
Agora já sabe que sou teu,
O que posso te dizer?
Coma-me! Coma-me! Coma-me!
Antes de me decifrar...
DEVORE-ME! 






quarta-feira, 29 de abril de 2015

"A Volta da Mulher Aviãozinho"




Começou assim... a mulher aviãozinho, desde pequenina querendo ser... querendo ir... com qualquer um... sendo tão querida, sendo tão amável, tão desejada pelos pais, pelos seus entes queridos, tanto carinho, tanto amor, tantas bonecas e tantos brinquedos.

Todos professores a queriam em sua sala, a doce menina, e cresceu assim encantadora, elogiada pelos vizinhos, tão docemente exemplar e de aniquiladora perfeição que os meninos nem ousavam disputar sua atenção, praticamente uma boneca de porcelana, delicada, educada e inteligente, boa filha, excelente aluna, boa vizinha, um espelho de cidadã.

O que ninguém sabia era que embaixo de tantas camadas de qualidades havia a vontade de se livrar de tudo aquilo, de não agradar tanto, de deixar de ser a mulher aviãozinho, todos querem, todos brincam, mas ninguém toca, fica, guarda.

Recém-graduada, todos cheios de dedos se convenceram de sua maturidade e permitiram que ela fosse estudar fora, afinal era ajuizada, plenamente saudável, nada abalaria sua integridade de boneca de porcelana que todos sabiam no fundo... no fundo que ela não era frágil, devido as atitudes, decisões e acontecimentos...

Fora do quarto de brinquedos – sua casa/círculo/amigos/família – pode sair da caixa pode voar para onde quisesse e para quem quisesse, pode provar tudo o que queria e que ninguém ousaria imaginar, com toda sua consciência e em seu pleno juízo. Se entregou a todos os jogos, diversões e guloseimas que a vida pode lhe oferecer, brincadeiras que jamais poderia contar para ninguém.

Anos depois, já farta de brincar, com um currículo invejável conseguiu estender sua formação em lugar ainda mais distante, um novo playground, voaria ainda mais, pousaria refestelando-se em novas pistas, aeroportos nus...então se viu nem tão saciada assim.

Tempos depois retornou a sua origem, a terra natal, quase não a reconheceram, por dentro, por fora, ela não era a mesma, apesar de sempre ter sido assim, a boneca de porcelana chinesa se espatifara e os caquinhos dispersaram pela poeira do tempo. Quem aterrissara agora era "A Mulher Aviãozinho", de asas ainda abertas para a liberdade, ninguém gostou do que via, todos queriam continuar felizes vendo aquilo que imaginavam e os confortava.Nada romântica, nada delicada, mais esportiva, mais moleca e resistente como metal. 


“Ela” não ficou muito por ali, fez de conta que nada notou e dias depois alçava outros voos e aportava em novas terras, aviãozinho... a Gulliver de saias...  se deixando... se permitindo voar e ser voada... alada... brinquedinho... todos viajavam através de suas asas, viam através de suas janelas, pousavam com suas rodas, se sustentavam com suas turbinas e ela os levava para as nuvens.