quarta-feira, 31 de agosto de 2011

"A Volta da Mulher/Papel"




Mais uma vez, desistir...


Uma linha tênue separava o voltar, do seguir em frente. Mergulhar e se afogar em mais uma reprise de engodo. Com ideias amargas, a boca azeda, pensou bem e agiu rapidamente com doçura. Desistiu. Talvez o desistir tivesse esse aroma desagradável de covardia, para outros fosse apenas a autenticidade de assumir seus atos, pensamentos, decisões. Meu Deus! O que faria agora? Começaria tudo novamente? Do princípio? Tantas perguntas se fazia, e ao mesmo tempo, todas voavam pela janela do ônibus. Seus ombros comprimidos entre os outros tantos ombros no último banco inteiriço do fundo. Teria que voltar para casa e dizer... dizer o quê? Dizer nada. Por que é que sempre se tem que dizer alguma coisa - pensou. Sábio é o silêncio que diz tanta coisa ao mesmo tempo sem um ínfimo ruído. Hesitou em dar o sinal, mas mudou de ideia e acenou com as pálpebras para a janela do seu quarto que se afastava, conforme o ônibus se distanciava. Agora teria que ir pra algum lugar. Porém isso não seria problema, o que não falta são lugares neste mundo. Pontos depois, pessoas desceram, decidiu então que aquela praça seria um bom lugar para aportar. Desceu os degraus e colocou os pés sobre a calçada. Seguiu sem saber para onde. Tinha os pés no chão, mas não metaforicamente. Pairava no ar, como folha de papel. Pronta pra ser apanhada, em branco, esperando por um novo texto, ou um desenho. Tinha receio que andava em círculos dentro de uma mesma anedota tosca, mas precisava seguir em frente. Mais uma vez voltava de lugar algum e seguia para lugar nenhum, esperando por um traço que lhe desse outro rumo. Uma volta, uma nova história, uma nova mulher... folha... 


Quando começou a trovejar, se recolheu com seu vestido branco rodado, embaixo de um toldo para que não se desmanchasse com a chuva vindoura.


segunda-feira, 29 de agosto de 2011

“As Vidas Normais de Wong Kar-Wai”


(na foto acima - cena do filme com Judge Law e Norah Jones)

(texto publicado pela primeira vez no lançamento do filme)


"My Blueberry Nights" ou "Um Beijo Roubado" - Tortas saborosas, olhares tristes, perdidos numa cidade escura, quase abandonada, trens passando, brigas ao fundo, letreiros em neón como sempre. Tudo passa muito rápido, mas existe sempre alguém ali estacionado no tempo, ou melhor, em um balcão do tempo, de um bar. Vidas sempre normais, onde muitas vezes deixamos de ser protagonistas de nossas próprias vidas, para que se dê lugar a vida dos outros. "Cinema Noir" contemporâneo. Olhares que encontram, lágrimas perdidas, ruas, desencontros, pessoas comuns. Olhos que não querem dizer, bocas que não querem pedir. Idas e vindas. Tudo retorna ao  início. Beijos não dados, beijos roubados. Vidas que se cruzam, pessoas se conhecem casualmente. Momentos felizes e calmaria saem do caos e da infelicidade. Desfechos corriqueiros como na vida real. Quase felizes. Mesmo porque, na vida real não existe fim. Pura poesia do concreto, das estradas velozes e das esquinas estáticas. Imagens que dizem mais que mil palavras. Isto é mais ou menos, Wong Kar-Wai - no cinema/crônica do dia a dia...


 (na foto acima: Wong Kar-Wai)

para saber mais sobre o diretor e seus filmes...



terça-feira, 19 de julho de 2011

"A Volta da Mulher/Cortina"




cor.ti.na
s. f. 1. Peça de pano suspensa para adornar ou resguardar janela ou outra coisa. 2. Vedação.


Um dia ela se foi até o fim da linha...
Um dia ela voltou e parou até encontrar a boca da outra igual a si.

Elas escondem as janelas para que você não veja e não saiba o que realmente acontece no mundo externo. Não sofra! Desta maneira você somente terá olhos para "elas", que correm de um lado para o outro, aparentemente submissas em vestes amplas e esvoaçantes que ondulam diante da brisa que nunca entra.
Elas escondem os terceiros para que os segundos e os primeiros não saibam que há mais gente por ali.
Em tecidos longos de recato, que cobrem a paisagem imoral e promíscua de vales e morrinhos quentes e úmidos, vivem assim, as mulheres cortina, que sentem passeios de perplexos turistas em seus ambientes internos e bem decorados.
Às vezes elas se esparramam lânguidas, estando pela sala de estar, ora cobrindo a mesa pela sala de jantar, se perdem em devaneios nos quartos de dormir, se despem no quarto de vestir, vestem camas como colchas e lençóis.
Elas, pálidas e pacientes, mentem, cobrem e recobrem, escondem e descobrem, deixando impune o que quiserem, disparam peremptoriamente da direita para a esquerda e vice-versa, suspensas em argolas, desesperação em seus fálicos varões. Recordações saudosas dos antigos trilhos.
Os olhos da noite tentam invadir, passam incólumes pelas mulheres que tornam melhor a limitação das quatro paredes do que chamam lar, pensando no seu melhor bem estar, no seu servir. No seu pesar, do leve cortinar.


Mulheres de infatigável abrir...


Cortinas de desvelado fechar...

cor.ti.nar
v. Tr. dir. 1. Armar com cortina. 2. Encobrir.



sábado, 9 de julho de 2011

"A Volta da Mulher/Sombra"




            Um dia ela voltou pra ver o que não via há muito tempo, voltou para ver e não ser vista. Ver como tudo ficou. Tudo e todos a sua volta sem necessariamnete estarem. Poder ver das sombras, todos que estavam na pseudo-luz. Retirou da bagagem de mão seus artefatos sombrios da memória. Rodeou e sombreou pelas bordas. Todos riam e sorriam idiotas em frente a TV. Ela, apenas um vulto na janela, por trás das cortinas, vidros. O cão latiu alucinadamente e ela se esvaiu na escuridão desempenhando seu papel de apenas ser sombra, vulto, memória, passado, noite, trevas, vestígio de ser... Se recolheu para dentro do nada do que poderiam vir a supor. Seus saltos altos e pontiagudos nem eram tão pontiagudos assim quando comparados às ilusões perdidas e longinquas. Agora poderia ser a cena de um filme noir, um quadro antigo de museu, um manequim numa vitrine de loja decadente. Os morcegos voavam bem baixo, atrevidos rodeando a luz rente ao asfalto, sentiu vontade de acariciá-los de leve, caso fosse possível, mas era tão impossível quanto retornar àquela casa ou apagar de vez o que passou. Deu sinal e entrou em um táxi coincidentemente preto enquanto ligava seu MP3. Ao som das vozes de Bjork e de Antony Hegarty cantando "Dull Flame of Desire", olhou pra frente, mas não resistiu. Assim como a mulher de Lot, deu uma olhadela para trás, correndo o risco de tornar-se estátua de sal para sempre. Em frente a casa que espionara a pouco, “ele” assistia sua nova partida da calçada, com o rosto oculto pela máscara de sombras dos galhos secos das árvores. A linha que dividia o asfalto, a dividia em duas, o ontem e o hoje, ou o hoje e o amanhã, a luz e a escuridão. Um dia havia partido sombra na calada da noite. Olhou pra frente, já que o motorista indagava qual o seria o seu destino. Disse por dentro em voz alta:
            
              - Quem é que sabe o destino?




segunda-feira, 20 de junho de 2011

"Café... Preto"




Ao fim do dia, ela decidiu ir tomar um café... os guizos do umbrau da porta logo anunciaram que ela adentrava em seus saltos altos, finos e pretos...

A mulher branca sentou-se e cruzou as pernas por fora da saia, desnudando a brancura das coxas e panturrilhas sob a saia preta.
O homem preto sorriu com dentes muito brancos e acomodou a mão grande, aberta e preta sobre a toalha branca, dedilhando.
A mulher ficou ruborizada ao sentir-se despida por aquele sorriso, imaginando aquelas mãos pretas desbravando suas curvas de carne branca. De nervoso cruzou e descruzou mais algumas vezes suas alvas pernas - alvo.
O homem preto continuava encantado e hipnotizado a distância, quando pediu ao balconista – Por favor, um café preto! No copo - confirmou, logo depois.
A mulher branca riu por dentro, da redundância,  de decepção pediu em seguida um café expresso, - Puro! – precisou reafirmar o que já achava óbvio no pedido.
Logo chegou a decepção da mulher branca, uma mulata que o homem preto aguardava. Ele ficava tentando dar atenção as duas, um olho no leite, outro na gata parda.
Então, o homem preto precisou se acalmar, pois se soubesse que encontraria aquela mulher branca ali, nunca teria marcado o encontro com a outra. Estava fascinado pela branca, mas não poderia ser grosseiro com a mulata. Então mergulhou os lábios rosados por dentro e pretos por fora no leite branco espumante, sorvendo tudo como se sorvesse a sonhada pele da mulher branca, daquela tarde que surgia tardiamente em sua vida.
A mulher branca em meio às chamas do peito, não tinha mais o que fazer ali, então partiu sentindo que deixava algo pra trás. 
A noite ela dormia acordada ao lado de seu marido branco.
O homem preto depois de duas infelizes tentativas de saciar o desejo, e por que não? Encontrar  a mulher de sua vida... Tentava inutilmente dormir ao lado da mulher preta cor de grãos de café.
Naquela noite, em cada lado da cidade o homem preto e a mulher branca sonharam em preto e branco. Ele nela. Ela nele.
Pela manhã branca...
O homem preto pensou na mulher branca, em frente ao espelhou se empolgou, se empolgou... um exato minuto depois, derramou assim o líquido branco, banhou-se, perfumou-se e vestiu seu uniforme branco e foi trabalhar.
A mulher branca vestiu seu uniforme preto de todos os dias cinzentos, mas desta vez tinha um propósito mais nobre - enterrar o marido.

Ao fim do dia, ela decidiu ir tomar um café... sentou-se ao balcão e pediu – por favor, um café... preto! Sentiu o líquido quente e saboroso ser sorvido entre seus lábios acompanhado do aroma que envolvia todo o ambiente.

Instantes depois, porta se abria denunciada pelo tilintar dos guizos suspensos no umbrau, sapatos grandes largos e brancos adentravam...





sábado, 11 de junho de 2011

"sob toldos e marquises"




Dia desses
Tarde dessas
Chovia incessantemente
Porém assim garoa
Minhas ideias insanas não paravam de gotejar
Inquietude respingava
Chuvisco irrequieto
Então sai por aí
Sem guarda-chuva
Pois queria caminhar livre
De pesos ou encargos
Nada queria levar comigo
Por isso caminhei sob toldos e marquises
Estamos sempre procurando algo pra nos proteger. 




domingo, 29 de maio de 2011

"um cacto para você..."




um cacto para você...
ser tão seco

um cacto para você...
que tão pouco tempo tem de regar

um cacto para você...
arisco ser cheio de espinhos

um cacto para você...
que nunca lembra de nada molhar

um cacto para você...
ser árido simpático e distante

um cacto para você...
quem sabe ter algo vivo perto de você

um cacto para você...
sentar em cima e quem sabe assim...
descobrir se é capaz der sentir alguma coisa por algo
ou por alguém inanimado, ou não.

um cacto para você...