domingo, 14 de junho de 2015

"Meu coração na bandeja"




Agora já não tem mais jeito,
Que então seja feito 
E que assim seja!
Meu coração já é teu...
Pode servir na bandeja.
Um dia só sem te ver
E o pobrezinho já lateja!
Pode sim... pode servir na bandeja
Já é... o que ele deseja.
Talvez não sei se é... comê-lo
Realmente o que você almeja.
Pode ser como antepasto
Pode ser o prato principal
Ou até mesmo sobremesa.
Chama o garçom pra servir na bandeja.
Não fica muito bonito servir moído,
Pode ser picado no molho como moela...
Ainda mais se colocar na baixela.
Pode ser acebolado, todo tostado,
Hum! Bom pra caralho!
Então vê se não esquece o alho! 
Que é pra não ficar insosso.
Pode servir no jantar, no lanchinho ou no almoço.
Pode ser refogado no vinho ou assado na cerveja.
Pode, pode sim, meu benzinho,
pode servir na bandeja.
Pode ser em cubos enfiados no espetinho,
Ele promete bater quietinho,
Sem fazer alarde,
Mesmo no momento em que mais arde.
Pode ser caramelado, crocante por fora e tenro por dentro,
Pode ser desfiado com salsa, tomate e muito coentro.
Pode ser trufado, horas bolas!
Já que somos dois chocólatras.
Opa! Pode bem ser boiando na sopa,
Ou em salada, com bastante alcachofra.
Pode ser polvilhado de confeitos coloridos,
Nada mais o fere depois desse cotovelo tão dolorido.
Pode ser em lascas, ou pode ser em bife.
Assim que melhorar seu apetite,
Depois que passar a gripe.
Pode ser guisado, vou achar até gozado,
Ou frito com muito pimentão,
Requentado no amor ou na paixão.
Agora já não tem mais jeito,
Que então seja feito e
Que assim seja...
Meu coração já é teu,
Pode servir na bandeja.
Pra acompanhar pode beber um espumante,
E o coração bife a rolê, 
pra não escapar o recheio,
Amarre bem com barbante.
Depois de devorá-lo com rabanetes,
Não esqueça o fio dental,
Que é pra eu não ficar em seus... dentes, foi mal,
E não sair em tuas palavras.
Agora já sabe que sou teu,
O que posso te dizer?
Coma-me! Coma-me! Coma-me!
Antes de me decifrar...
DEVORE-ME! 






quarta-feira, 29 de abril de 2015

"A Volta da Mulher Aviãozinho"




Começou assim... a mulher aviãozinho, desde pequenina querendo ser... querendo ir... com qualquer um... sendo tão querida, sendo tão amável, tão desejada pelos pais, pelos seus entes queridos, tanto carinho, tanto amor, tantas bonecas e tantos brinquedos.

Todos professores a queriam em sua sala, a doce menina, e cresceu assim encantadora, elogiada pelos vizinhos, tão docemente exemplar e de aniquiladora perfeição que os meninos nem ousavam disputar sua atenção, praticamente uma boneca de porcelana, delicada, educada e inteligente, boa filha, excelente aluna, boa vizinha, um espelho de cidadã.

O que ninguém sabia era que embaixo de tantas camadas de qualidades havia a vontade de se livrar de tudo aquilo, de não agradar tanto, de deixar de ser a mulher aviãozinho, todos querem, todos brincam, mas ninguém toca, fica, guarda.

Recém-graduada, todos cheios de dedos se convenceram de sua maturidade e permitiram que ela fosse estudar fora, afinal era ajuizada, plenamente saudável, nada abalaria sua integridade de boneca de porcelana que todos sabiam no fundo... no fundo que ela não era frágil, devido as atitudes, decisões e acontecimentos...

Fora do quarto de brinquedos – sua casa/círculo/amigos/família – pode sair da caixa pode voar para onde quisesse e para quem quisesse, pode provar tudo o que queria e que ninguém ousaria imaginar, com toda sua consciência e em seu pleno juízo. Se entregou a todos os jogos, diversões e guloseimas que a vida pode lhe oferecer, brincadeiras que jamais poderia contar para ninguém.

Anos depois, já farta de brincar, com um currículo invejável conseguiu estender sua formação em lugar ainda mais distante, um novo playground, voaria ainda mais, pousaria refestelando-se em novas pistas, aeroportos nus...então se viu nem tão saciada assim.

Tempos depois retornou a sua origem, a terra natal, quase não a reconheceram, por dentro, por fora, ela não era a mesma, apesar de sempre ter sido assim, a boneca de porcelana chinesa se espatifara e os caquinhos dispersaram pela poeira do tempo. Quem aterrissara agora era "A Mulher Aviãozinho", de asas ainda abertas para a liberdade, ninguém gostou do que via, todos queriam continuar felizes vendo aquilo que imaginavam e os confortava.Nada romântica, nada delicada, mais esportiva, mais moleca e resistente como metal. 


“Ela” não ficou muito por ali, fez de conta que nada notou e dias depois alçava outros voos e aportava em novas terras, aviãozinho... a Gulliver de saias...  se deixando... se permitindo voar e ser voada... alada... brinquedinho... todos viajavam através de suas asas, viam através de suas janelas, pousavam com suas rodas, se sustentavam com suas turbinas e ela os levava para as nuvens.



domingo, 26 de abril de 2015

"FADA F."





Fada fingida
forjava fados
fazia farpas
fritava favas
formava fardos
flertava flancos
filmava fatos
firmava furos
furtava flores
flechava flamingos
formulava fotos
fitava feios
fincava facas
flatulava famas
fechava fontes
fanfarreava fome
flambava fetos
fulminava fibras
fronteira fleumática
formosa frondosa
famosa frouxa
formada falsa
fruta fugidia
frota febril
frugal fulcro
fugaz firula
fisicamente flanando

fatidicamente... fatalmente... fadada 

fast food

Fada F.

Filha...

F...



sexta-feira, 27 de março de 2015

"A Janela do Lado"



(texto antiguinho, primeira fase, escrito faz 25 anos em média, qualquer pieguice é mera imaturidade).


É noite,
Num beco.
Muito depois das oito,
Um grito,
Um coito,
Ela desesperada,
Ele afoito,
Ela com medo,
Ele doido.
Mãos desgovernadas,
Pele suada,
Corpos entrelaçados,
Sonhos molhados.
Vontade,
Desejo,
Um berro misto de beijo.
Sem alarde,
Sob um lampejo.
A chuva molha-os,
O trovão abafa o som,
O delírio toma conta
Como se fosse uma invasão.
No prédio ao lado

Alguém sem querer

Os vê de uma janela,
Os olhos se arregalam,
Benze-se,
Mas os venera.
Ambos se procuram
Numa busca sem fim,
De dedos,
De tato,
Numa viagem de curvas,
Rasgando o vestido carmim.
O fecho éclair é supérfluo,
A intimidade é aberta,
O ato é um objetivo,
O prazer uma descoberta.
Triste é ter que acabar,
Horror é nunca experimentar.
Censura são crianças famintas na rua,
Proibido é reprimir um gemido.
Mas no dia seguinte
Quando amanhecer,
Vai estar tudo apagado
Como se a chuva os tivesse levado,
A única testemunha além do beco,


Será alguém da janela do lado.



sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Confissões ruborizantes do claustro vermelho - "Virginia"




Virginia havia viajado o mundo inteiro, devido seu trabalho com sua carreira bem sucedida como modelo e também com seu marido por causa do trabalho dele - não vem ao caso - ainda assim sempre viajavam nas férias.

Um dia Virginia cansou de tudo isso, do estar em vários lugares, decidiu que precisava de repouso, sossego, tranquilidade, transformação...

Queria agora pousar suas asas cansadas...

Soube da mansão rubra que realizava os mais exóticos desejos e assim foi para lá, e aterrissou...

E seu desejo foi fazer as coisas mais vulgares que todo mundo faz todos os dias, sem glamour, sem novidades, a vida medíocre e cotidiana. 

Queria agora o essencial, o principio e desta forma, não quis mais seu marido. Para poder sentir o sabor da essência da vida solicitou a “casa”, homens simples – que não cheiravam à ouro e à cobre -, e assim se entregou ...


Agora era uma mulher normal, que fazia coisas normais: lavava louças, limpava chão, lavava as privadas da mansão vermelha, cozinhava...
e recebia homens normais, trabalhadores, pedreiros, operários, bancários, vendedores...

Sendo assim havia renascido... rompia a casca do casulo da velha vida de outrora e se expelia saltando para o mundo de uma nova vida.

Encontrava agora sua origem, só não sabia o quanto poderia durar, e querer então correr de volta para o brilho do passado. Voaria envolta da luz enganadora de ilusão e se debateria até morrer seca. Mas a vida é assim, repleta de fases, suas mutações, seus ciclos. 

Agora sentia que voava... sem sair da cidade... sem tirar os pés do chão.




quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Lançamento do meu segundo livro - "Apartamentos Vazios" - crimes de amor e cimento


O dramaturgo e colunista do Campinas.com.brCesar Póvero, fez o lançamento de seu primeiro romance de suspense e segundo livro publicado, “Apartamentos vazios: Crimes de Amor e Cimento”, na próxima terça-feira (16), na livraria Cultura do shopping Iguatemi Campinas, das 19h às 21h. O evento é aberto ao público.




A obra publicada pela Giostri Editora é ambientada em uma São Paulo caótica, cinzenta e sombria, onde vive a escritora frustrada Eloá Lemos. No alto de um edifício, ela trabalha como corretora na “Ascensão Imóveis & Construção”, uma mulher apaixonada por “apartamentos vazios”.Em crise pelas escolhas erradas de sua vida, decide abrir espaço no lugar onde mora, rompendo, assim, uma parede. Após este fato, sua vida medíocre passa a se parecer mais com a das personagens dos best-sellers, movimentando sua vida em 180 graus, e passa desta forma por um processo de 'ascensão'.Enquanto isso, ela assiste a uma série de mortes à sua volta numa trama mirabolante, a qual a faz pensar ser uma grande loucura de sua cabeça, tudo isso enquanto quer publicar seu primeiro livro. Assim, investiga assassinatos, numa visão poética de uma mulher solitária na megalópole. O final da história é surpreendente.


Sobre o autor
O autor Cesar Póvero, de 44 anos, nasceu e vive em Campinas, é pós-graduando em Cinema e Linguagem Audiovisual e graduado em Rádio, TV e Multimídia. Em 1998, seu primeiro roteiro, “O Pesadelo”, foi o vencedor no festival “Etc & Tal de Causas Sociais” pela NET TV. De sua autoria foram escritas 27 peças teatrais, sendo três adaptações. Atualmente estão em cartaz “Anonimato e morte de Doralinda, linda por demais, linda de frente, linda de trás” e o infantil “Com que Chapéu Eu Vou?”, além do teatro de rua “Breu”.

Autor de vários poemas, contos e crônicas que são postadas no blog “Poeteria Crônica”, e crônicas de ficção e cultura no blog “Liquidificultura” no site Campinas.com.br. Possui textos publicados em “Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos vol.54”, “Crônicas da Minha Rua” e “Contos de Outono” pela editora CBJE. Autor do livro “Casa Nua” e roteirista do programa pra web “E-Sarau”, episódio “Casa Bancária”, e o curta-metragem “Um Erro Chamado Noêmia” e “Os Medos de Matilde”. Ministra oficinas de teatro desenvolvendo a dramaturgia dos alunos pelo POIESIS e pelo Centro Cultural Casa de Joana em Hortolândia. (Também trabalha como ator e diretor e atua em áreas como figurinos e cenários).  

Serviço:

Lançamento do livro “Apartamentos vazios: Crimes de Amor e Cimento”, do autor Cesar Póvero
Local: Livraria Cultura, shopping Iguatemi. Av. Iguatemi, 777, Vila Brandina – Campinas
Data: 16 de dezembro
Horário: das 19h às 21h
Entrada:
Informações: (19) 3751-4033 

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Confissões ruborizantes do claustro vermelho - "Pietra"







Pietra chegou a mansão rubra com o desejo mais puro de todos os que já haviam se hospedado ali. Entre tantos sonhos obscuros, o “dela” era límpido, quase um sonho de criança, devido este detalhe, pagou muito mais caro que as demais mulheres e ainda assim não lhe garantiram o produto almejado. 

Pietra havia começado sua vida como todos os seres humanos, com todas as chances de uma vida correta e todas as incorretas. Mas o qual seria o melhor caminho? Caso fosse se basear na tão recomendada bíblia, o que não faltava eram exemplos sórdidos, por que ela não teria direito de prová-los?

De uma infância inocente e uma adolescência comportada, Pietra se tornou a filha exemplar, mas depois de tanta carência provocada por pais tão corretos, após o desprezo dos colegas de escola por ela parecer tão diferente e tão perfeita, Pietra só esperava pelo dia de sua maioridade.

Certo dia quebrou o silêncio e foi morar só, os pais não puderam impedir, Pietra conheceu então a bebida, o cigarro, as drogas, que não lhe fizeram a cabeça, o sexo... este sim lhe fez a cabeça, o corpo, a pele... regado a bebidas e cigarros...

Pietra se descobriu quase ninfomaníaca, quase alcoólatra, quase... tudo, mas sabia que tinha o controle, podia ficar um dia sem, dois, três... mas não era fácil.
Adorava homens sórdidos em lugares sórdidos e palavras chulas, tudo o que quebrava o cristal da pureza e o encanto da perfeição do passado.


Enjoada disso tudo, fatigada, agora Pietra queria um amor verdadeiro, puro, infantil, pueril, coisas de primeiro amor, de pecado original. Não pensava em restaurar a sua virgindade, queria se isolar de tudo, abster-se, cicatrizar a alma, sentir-se limpa novamente. 

Agora estava ali aguardando o dia em que poderia cometer um pecado realmente “original”.